Pode acontecer que um poeta morra aos vinte e um anos, um revolucionário ou uma vedeta do rock'n'roll pode morrer quando tiver vinte e quadro, mas depois disso parte-se do princípio de que vai tudo seguir o devido curso. Uma vez ultrapassada a lendária e fatídica Curva da Morte, é de esperar que esteja à vista o fim do escuro túnel e que uma pessoa se imagine a percorrer uma auto-estrada de seis pistas, rumo ao seu destino (quer se queira quer não), Cortamos o cabelo e fazemos a barba todas as manhãs. A fase em que éramos poetas, revolucionários, estrelas do rock and roll ficou para trás. Já não temos idade para nos deixarmos dormir, podre de bêbados, à porta de uma cabina telefónica nem de ouvir os Doors aos berros às quatro da matina. Em vez disso, compramos seguros a um conhecido que trabalha numa seguradora, tomamos a nossa bebida em barzinhos de hotéis e juntamos todas as contas do dentista para efeitos de redução nos impostos. Quando se tem vinte e oito anos, é normal.
Haruki Murakami in "A Rapariga que inventou um sonho"
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